[Crítica] Marty Supreme

Não é possível celebrar o caos vazio de significado

Mateus de Medeiros

1/13/20262 min read

Honestamente, é difícil escrever sobre um filme cuja ideia não convence a ponto de interessar, nem gera uma reflexão profunda a ponto de você abraçá-lo — mesmo tendo 2 horas e 30 minutos para tentar fazê-lo. Uso esse gancho para falar de Marty Supreme (2025), a mais nova cinebiografia de Marty Reisman, famoso jogador de tênis de mesa americano, interpretado aqui por Timothée Chalamet.

De cara, é preciso comentar sobre a divulgação do longa, que gira em torno da afirmação de que estamos presenciando o melhor trabalho de Chalamet como ator. Particularmente, não senti isso. O ator entrega, sim, um ótimo trabalho, mas ele também o faz em outras obras; aqui, durante todo o primeiro ato, ele transita entre atuar e ser ele mesmo. Além disso, há apenas uma cena em que o astro realmente sai da curva e, ironicamente, é a última do filme (talvez por isso o desfecho ressoe como algo agradável). Não creio que isso seja um problema para o grande público, mas é uma observação que reforça a ideia de que o marketing busca vendê-lo para o Oscar, e não necessariamente para quem deseja apenas assistir ao filme.

Nesse ponto, entram os desperdícios e os equívocos de Josh Safdie e Ronald Bronstein, responsáveis pela direção e pelo roteiro, respectivamente. Chega a ser impressionante a arrogância que aparentam ter, não por tentarem subverter o gênero da cinebiografia esportiva, mas porque falham com a certeza de que estão acertando. O núcleo esportivo é o que, teoricamente, move o filme; ainda assim, ele parece irreal e, ao mesmo tempo, inflado por temas que são apenas jogados e esquecidos — como é o caso do significado cultural do esporte no reerguimento do Japão pós-Segunda Guerra Mundial. A dupla criativa pode até argumentar que Marty Supreme utiliza o caos na vida do protagonista como estratégia para elaborar sua mensagem, mas esse caos se mostra vazio na medida em que a conclusão parece incoerente com o percurso do personagem.

O apelo visual também é marcante e, esteticamente, funciona. O mesmo não se pode dizer de sua importância narrativa: há uma cena específica, visualmente chocante e forte, que possui significado próprio, mas não agrega nada ao conjunto da narrativa, entrando para a lista de desperdícios de Josh Safdie.

Abro ainda um parêntese para algumas linhas de diálogo simplesmente ridículas, como uma a cargo do ator Kevin O'Leary. Embora os cenários e figurinos sejam excelentes, a trilha sonora é questionável. Algumas escolhas, como o uso de Everybody Wants to Rule the World, do Tears for Fears, parecem encaixadas à força. É difícil somar todos esses elementos e dizer que apreciei o "caos completo" da obra. O que pouco se diz é que se trata de um caos vazio, que se sustenta apenas pelo carisma de Timothée Chalamet.

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