[Crítica] Emergência Radioativa (2026)

O azul que seduz, o azul que destrói

Gabriel Rodrigues

3/18/20263 min read

A cada dia que passa, fica mais evidente o crescimento do cinema brasileiro. Seja pelas recentes indicações ao Oscar ou pelo aumento de investimentos no setor, a indústria nacional demonstra um amadurecimento notável. Nesse contexto, surge Emergência Radioativa, produção brasileira da Netflix que revisita um dos episódios mais assustadores da história do país: o acidente com o Césio-137, ocorrido em 1987, na cidade de Goiânia. A série mergulha no impacto humano e social da tragédia, que não apenas abalou o estado de Goiás, mas também acendeu um alerta nacional — um “sinal azul”, por assim dizer, em referência ao brilho hipnotizante e fatal do material radioativo.

No que diz respeito ao elenco, a produção reúne nomes conhecidos do público, como Alan Rocha e Johnny Massaro, além de outros talentos que entregam performances competentes, ainda que irregulares. Em alguns momentos, as atuações soam artificiais, com interpretações que não alcançam toda a complexidade emocional exigida pelos personagens. Isso, no entanto, não se aplica a todos: Johnny Massaro, no papel de Márcio, destaca-se com uma performance intensa e convincente, reafirmando seu talento, enquanto Tuca Andrada, que interpreta o governador de Goiás, também merece destaque ao trazer solidez ao papel.

Por outro lado, um dos pontos mais frágeis da narrativa está na construção emocional e no desenvolvimento do roteiro. As mortes decorrentes da contaminação, que deveriam carregar grande peso dramático, por vezes são tratadas de forma apressada e pouco impactante, falhando em desenvolver um vínculo forte entre o público e as vítimas. O caso de Celeste — uma das histórias mais marcantes da tragédia real — é um exemplo claro dessa limitação, pois sua trajetória carece de maior profundidade e sensibilidade, o que reduz drasticamente o impacto de seu desfecho em prol de um ritmo mais acelerado.

Apesar dessas falhas de aprofundamento, a série acerta ao retratar a desconfiança da população em relação às autoridades, especialmente durante os momentos de isolamento forçado. Mesmo sabendo que as medidas eram necessárias, o roteiro consegue transmitir com propriedade o medo, a confusão e o sentimento de injustiça vividos pelas vítimas. Com cinco episódios, a produção mantém um ritmo ágil, evitando se tornar cansativa ao apostar em reviravoltas pontuais que sustentam o interesse, auxiliada por uma ambientação de 1987 muito bem construída, com atenção minuciosa aos detalhes visuais de figurinos e veículos.

No geral, apesar de suas falhas conceituais, a produção evidencia a evolução das narrativas audiovisuais brasileiras, que vêm se afastando de fórmulas desgastadas e apostando em histórias mais densas e relevantes. Ainda assim, fica claro como saldo dessa experiência que uma boa reconstrução histórica precisa ser acompanhada de interpretações consistentes e emocionalmente envolventes do início ao fim — algo que a série, em determinados momentos, não consegue alcançar plenamente, mas que ainda assim a posiciona como um passo importante para o nosso mercado de streaming.

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